Qual a nossa relação com a ancestralidade e os idosos nos tempos atuais? Recebemos tanta influência dos que vieram antes de nós, e muitas vezes queremos ignorar essa história.

Abertura

Há algum tempo comecei a pensar sobre ancestralidade ouvindo outro podcast do qual gosto muito, o Refogado, comandado pelo amigo Caio San. Como o nome já sugere, o Refogado fala sobre alimentação e culinária. Não é sobre receitas, mas sim sobre cultura e história, recomendo muito que escutem! No episódio 20, o Caio contou com várias participações para falar sobre os pratos feitos pelas avós e avôs. 

Qual nossa relação com a ancestralidade nos tempos de hoje? Como nossa organização social passou a enfocar tanto na técnica e na tecnologia, temos o costume de achar que todo passado é atraso e ultrapassado. E acabamos esquecendo que nós, seres humanos, somos os mesmos e que muito ainda tem a ver com sentimento. 

Esse pensamento me fez lembrar do segundo texto, parte do livro Mundurukando, do Daniel Munduruku. Nele, o escritor relata a lição que recebeu do avô, quando se questionava sobre sua própria identidade indígena. Em uma conversa que tivemos com ele no episódio #128 do Entre Fraldas, uma frase me marcou muito: O passado é memória, e os mais velhos nos ajudam a compreendê-lo, o futuro não existe, é preciso ser hoje. Isso não é um pensamento inconsequente, mas a reflexão de que nada vai acontecer no futuro que não seja consequência do que se faz hoje. E questiono, como me questionou a Ana Rosa, do podcast Apenã: somos bons ancestrais?

TEXTO 2:  Um avô

Meu avô me levou a um lugar que eu não conhecia, pois, por causa de minha pouca idade, não tinha permissão para adentrar a floresta e, quando isso ocorria, tinha de ficar próximo dos adultos. Andamos até dar em uma cascata de águas límpidas que formavam um belo lago verde-esmeralda. Fiquei radiante com aquela visão. Achei que seria um banho maravilhoso. Vovô, no entanto, olhou para mim e disse, sem cerimônia:

– Sente-se naquele tronco de árvore caído ali no alto. Fique lá. Sua tarefa vai ser ouvir o rio. Ouça o que ele tem para lhe dizer. Fique lá quietinho.

Achei que meu avô tinha enlouquecido. Eu já tinha ouvido falar muitas vezes que a natureza tem vozes, mas eu nunca havia ouvido nenhuma delas, de forma que tudo aquilo me parecia bobagem. Mas não discuti. Sentei-me no troco e simplesmente me deixei ficar por ali. Vez em quando, o velho fazia um gesto para mim, para me lembrar de que eu deveria ouvir o rio. Sabem de uma coisa, meus caros, o rio não falou. Confesso que me esforcei para ouvi-lo, mas ele não pronunciou nem sequer uma única palavra, tampouco deu um sinal que me fizesse ter a mínima convicção de que tinha falado comigo. Meu avô, no entanto, insistia para que eu me concentrasse. E o rio, nada. Passado algum tempo, já cansado por causa da incômoda posição, enquanto meu avô mergulhava deliciosamente nas águas claras, ele me chamou.

– Diga, meu neto, o que as águas do rio falaram para você?

Fiquei atônito com o questionamento. Tentei disfarçar dizendo que não havia entendido a pergunta. Ele repetiu, com toda a sua paciência.

– O que o rio falou para você?

– Não falou nada vovô.

– Falou sim, meu neto. Você é que não ouviu. Seu coração está inquieto. Coisas estão acontecendo dentro de você com muita força e você não está sabendo como entendê-las, não é mesmo?

Fiz que sim e ele continuou

– O rio ensina que é preciso ser perseverante. Ele diz que é preciso encontrar um motivo para seguir adiante. Meu neto já viu o rio parar diante de um obstáculo e ficar chorando, lamentando-se? Ele não faz isso. Sabe por quê? Porque dentro dele tem uma voz que repete sem cessar que, se ele parar, jamais irá se encontrar com o grande rio, lugar de onde vieram nossos ancestrais e para onde voltaremos depois desta nossa existência. O grande desejo do rio é ser rio, ele não quer ser outra coisa. E ele só não poderá sê-lo se abandonar sua verdadeira vocação. Acontecerá com ele o que acontece com todos os que, homens ou mulheres, abandonam sua missão: ficará doente, podre, fedorento. Água parada cria logo, e a vida vai embora. Ninguém quer tomar banho em um rio com água parada, pois sabe que ali não há alegria. Ali está um ser que desistiu.

Comentário

E falando em vovós e escrita, não tem como não lembrar da Cora Coralina. 

Para quem não conhece, saibam que eu te julgo muito agora, Cora é o pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas. Cora vem de coração e Coralina só era uma boa combinação. Uma senhora, de 76 anos que queria ser escritora desde os 14 anos, mas foi impedida pela família e obrigada a se casar. Cumpriu suas “obrigações como mulher de boa família”, enterrou um marido e criou os filhos. Quando mudou-se para Andradina, no interior de Goiás, precisou de complementar a renda vendendo bolos, enquanto fazia poesia. Cora tem escrita simples e cativante. Nas palavras de Drummond: “Na estrada que é Cora Coralina, passam o Brasil velho e o atual, passam as crianças e os miseráveis de hoje, o verso é simples, mas abrange a realidade vária”. E, assim como Drummond, Cora também tem suas pedras…

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…

Ajuntando novas pedras

e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.

Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha

um poema.

E viverás no coração dos jovens

e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.

Toma a tua parte.

Vem a estas páginas

e não entraves seu uso

aos que têm sede.

Apresentação do texto

E com esse percurso, nasceu um texto. Uma crônica a qual dei o título de Harmonia.

TEXTO 1: Harmonia

Há muitos anos não percorria aquela estrada. Muitas coisas mudaram no caminho. As pequenas cidades cresceram, comércios surgiram aqui e ali. Mas mesmo isso não tirava a sensação de familiaridade com aquele caminho. Cada curva o lembrava de uma conversa com os pais e o irmão. Cada parada tinha cheiro de pão de queijo com refrigerante de garrafa.

Seus pais nasceram em uma cidade pequena do interior e, depois de se casarem, mudaram para a capital em busca de oportunidades de trabalho para eles e estudo para os filhos. Durante toda a infância, viajava para visitar os avós em aniversários, feriados e celebrações. Saíam logo depois de comerem pela manhã, almoçavam no caminho e chegavam sempre no início da tarde. A recepção tinha sorrisos e um cheiro de café, que conduzia todos para uma mesa posta, com bolo e biscoitos. Sua avó era quem fazia o bolo, mas o café era sempre responsabilidade do avô.

Os anos foram passando, vieram a faculdade, o trabalho, os compromissos e as viagens foram reduzindo. Mas o cheiro de café sempre o lembrava daquele tempo. Certamente por isso tinha se tornado um barista. Estudou formas de secar, moer, ferver, não ferver, coar, prensar, misturar e harmonizar o café. Mas nunca havia conseguido repetir o sabor do que era feito pelo avô.

Quando parou o carro em frente à casa, aquele senhor alegre veio em sua direção. Passos um pouco mais curtos, corpo um pouco mais arqueado. Entraram na cozinha conversando sobre o restaurante novo no fim da rua, “eles entregam em casa!”. O café não estava pronto, pois haviam combinado que este era um dos motivos da sua visita. Abrindo um dos potes, o velho sorriu marotamente. “Estou sem açúcar. Tome, vai lá na venda e traz pra mim”. Receber da mão do avô o dinheiro amassado o fez se sentir com um metro e meio de altura. Quando saiu pela porta, em sua mente, saltitava degrau por degrau.

Entre os aparelhos da cozinha pequena, surgiu uma leiteira de alumínio, um pouco amassada. O avô a encheu de água sem medir, já conhecia o tamanho do recipiente. Colocou um pouco de açúcar no fundo e esperou ferver. Açúcar… ferver… dois pecados para um bom café! No coador de pano, colocou três medidas da colher com cabo cortado pela metade. Depois despejou a água, enchendo a casa com o cheiro de infância. O velho retirou de cima da geladeira um prato esmaltado com rapadura e colocou sobre a mesa.

– Café harmoniza bem com rapadura, pensou alto.

– Harmoniza?

– Quando dois sabores têm harmonia juntos. Quando combinam.

– Vocês arrumam nomes novos pra tudo – sorriu.

As canecas sobre a mesa esperavam o bule do qual saía uma coluna branca de vapor. Nada fazia sentido. O ritual seguido pelo avô não era o mais adequado para a preparação da bebida, ele sabia disso! Era o que os manuais diziam e suas experiências na faculdade e no trabalho também. Seria a qualidade do pó? Antes que pudesse fazer a pergunta, o avô encheu a sua caneca, sentou-se a seu lado cruzando as pernas e pensativo disse.

– Sua avó dizia que café combina com uma boa prosa.